Investimento de 25,3 Milhões de Euros na Gestão de Resíduos em Luanda: Uma Oportunidade Histórica para a Economia Circular em Angola

A decisão da União Europeia e da França de apoiar Angola com um investimento de 25,3 milhões de euros para o fortalecimento da cadeia de valor da gestão de resíduos sólidos em Luanda constitui um sinal claro de que a economia circular deixou de ser uma aspiração distante para se afirmar como um caminho estratégico para o desenvolvimento sustentável do país.

Entendemos este investimento não apenas como um financiamento destinado ao setor dos resíduos, mas como uma oportunidade para repensar profundamente a forma como Angola produz, consome e gere os recursos. Acreditamos que este é o momento de substituir uma lógica baseada no desperdício por um modelo que valorize os resíduos, promova a inovação e gere benefícios económicos, sociais e ambientais.

Durante muitos anos, os resíduos foram encarados apenas como um problema de limpeza urbana. Essa visão revelou-se limitada e incapaz de responder aos desafios do crescimento populacional, da urbanização acelerada e do aumento do consumo. Hoje sabemos que aquilo que designamos por “lixo” representa, na verdade, um conjunto de materiais com elevado valor económico quando corretamente separados, recolhidos e reintegrados nos ciclos produtivos.

Todos os dias, milhares de toneladas de plástico, vidro, papel, metal e resíduos orgânicos são descartadas em Angola sem qualquer valorização. Esta realidade traduz-se em perdas económicas, aumento da poluição, ocupação crescente de aterros e desperdício de matérias-primas que poderiam alimentar novas cadeias industriais e criar milhares de empregos.

A economia circular oferece uma alternativa sólida a este modelo. Em vez de seguir o ciclo tradicional de extrair, produzir, consumir e descartar, propõe uma gestão inteligente dos recursos, baseada na redução do desperdício, na reutilização, na reparação, na reciclagem e na reintegração dos materiais na economia. Esta mudança não é apenas uma resposta ambiental; é também uma estratégia de desenvolvimento económico e de fortalecimento da competitividade nacional.

Pensamos, que a transição para uma economia circular deve ser acompanhada por uma forte aposta na criação de emprego verde. A recolha seletiva, a triagem, a reciclagem, a logística reversa, a produção de matérias-primas recicladas e a inovação ambiental constituem setores capazes de absorver milhares de jovens e dinamizar pequenas e médias empresas. A nossa experiência, através do Projeto Recicla+, demonstra que investir na valorização dos resíduos significa criar rendimento, promover inclusão social e fortalecer economias locais.

Contudo, nenhuma transformação será verdadeiramente sustentável se não reconhecer o papel dos catadores. Estes trabalhadores desempenham diariamente uma função essencial na recuperação de materiais recicláveis e contribuem significativamente para reduzir a quantidade de resíduos encaminhados para lixeiras e aterros. Apesar disso, continuam, em muitos casos, a exercer a sua atividade em condições precárias e sem reconhecimento institucional.

Defendemos que qualquer estratégia nacional para o desenvolvimento da economia circular deve integrar os catadores como agentes ambientais, assegurando-lhes formação técnica, equipamentos de proteção individual, acesso à proteção social, organização em cooperativas e participação nas cadeias formais de reciclagem. Uma economia circular só será completa se for também uma economia de inclusão e de justiça social.

Igualmente indispensável é a educação ambiental. Infraestruturas modernas e investimentos financeiros, por si só, não alteram comportamentos. A verdadeira transformação começa nas famílias, nas escolas, nas empresas e nas comunidades. É aí que se constrói a cultura da separação de resíduos na origem, do consumo responsável e da valorização dos recursos. Por essa razão, defendemos que os programas de educação ambiental devem ocupar um lugar central nas políticas públicas e nos projetos de investimento, garantindo que a mudança seja duradoura e participada por toda a sociedade.

Também o setor privado tem um papel decisivo nesta transição. As empresas que investirem em soluções sustentáveis, em embalagens mais circulares, na logística reversa e na incorporação de matérias-primas recicladas estarão mais preparadas para responder às exigências dos mercados internacionais e aos princípios ambientais, sociais e de governação (ESG), cada vez mais valorizados por investidores e consumidores.

Para nós, este investimento internacional representa uma oportunidade que deve ser aproveitada para construir um sistema nacional de gestão de resíduos mais moderno, eficiente e inclusivo. No entanto, o sucesso desta transformação dependerá da capacidade de envolver todos os atores relevantes: o Estado, as autarquias, o setor privado, as organizações da sociedade civil, as instituições de ensino, os parceiros internacionais e as comunidades locais.

Defendemos igualmente que a implementação deste programa seja pautada pela transparência, pela boa governação e pela participação cidadã, garantindo que os recursos investidos produzam resultados concretos e duradouros para o país.

Acreditamos que Angola possui todas as condições para se afirmar como uma referência regional em economia circular. O país dispõe de uma população jovem, de um mercado em crescimento, de recursos naturais estratégicos e de um setor empresarial com crescente interesse por soluções sustentáveis. O desafio consiste em transformar estas potencialidades em políticas públicas consistentes, investimentos estruturantes e oportunidades reais para os cidadãos.

Continuaremos a trabalhar para que esta visão se torne realidade. Continuaremos a promover a educação ambiental, a defender a inclusão dos catadores, a incentivar a reciclagem, a apoiar iniciativas de inovação e a colaborar com todos os parceiros comprometidos com um futuro mais sustentável.

Porque acreditamos que gerir bem os resíduos não significa apenas proteger o ambiente. Significa criar riqueza, gerar emprego, promover dignidade e construir uma economia mais resiliente para as gerações presentes e futuras.