Sacos Plásticos Cada Vez Mais Frágeis: Estaremos a Resolver um Problema ou a Criar Outro?

Por: Rebela Botes
Directora Executiva da Associação Nação Verde – Ambientalista

 

 

A crescente preocupação com a poluição por plásticos tem levado muitos países, empresas e consumidores a procurarem alternativas para reduzir o impacto ambiental destes materiais. Em Angola, várias superfícies comerciais passaram a disponibilizar sacos plásticos mais finos e aparentemente mais leves, numa tentativa de reduzir o consumo de plástico. No entanto, esta prática levanta uma questão importante: será que estamos verdadeiramente a reduzir a poluição ou apenas a criar novos problemas para os consumidores e para o ambiente?

Quem faz compras regularmente nos supermercados e estabelecimentos comerciais do país já se deparou com uma situação cada vez mais frequente: os sacos rasgam-se antes mesmo de chegar a casa. Produtos básicos como arroz, açúcar, óleo, detergentes ou garrafas de água tornam-se difíceis de transportar porque os sacos não suportam o peso para o qual deveriam estar preparados.

O resultado é simples. Em vez de utilizar um saco, o consumidor é obrigado a utilizar dois, três ou até mais. Na prática, o consumo de plástico pode até aumentar, contrariando o objectivo inicial de redução de resíduos a partir do Decreto Presidencial n.º 122/25, que institui o Plano de Acção Nacional para a Eliminação Progressiva de Plásticos de Utilização Única. .

A realidade angolana torna este problema ainda mais preocupante. O país continua a enfrentar desafios significativos na gestão dos resíduos sólidos urbanos. Muitas comunidades não dispõem de sistemas eficientes de recolha selectiva, reciclagem ou valorização de resíduos. Como consequência, uma parte considerável dos resíduos plásticos acaba em lixeiras informais, linhas de água, praias, terrenos baldios e sistemas de drenagem.

Durante a época chuvosa, os efeitos são particularmente visíveis. Sacos plásticos abandonados ou transportados pelo vento acumulam-se nas valas de drenagem e nos canais de escoamento das águas pluviais, contribuindo para obstruções que agravam os riscos de inundação em vários bairros de Luanda e de outras cidades do país.

Além dos impactos urbanos, existem consequências ambientais graves. Quando expostos ao sol e às intempéries, os sacos plásticos degradam-se em fragmentos cada vez menores, originando microplásticos que contaminam o solo, os rios e os oceanos. Estes materiais podem ser ingeridos por peixes, aves e outros animais, afectando os ecossistemas e entrando na cadeia alimentar.

A fragilidade excessiva dos sacos representa igualmente um problema económico para os consumidores. Muitas famílias pagam pelos sacos fornecidos pelos estabelecimentos comerciais e esperam, legitimamente, que estes cumpram a sua função de acondicionamento e transporte. Quando isso não acontece, existe uma transferência injusta dos custos para o cidadão.

Importa esclarecer que defender sacos mais resistentes não significa defender um maior consumo de plástico. Pelo contrário. O verdadeiro caminho para a sustentabilidade passa pela redução do uso de descartáveis e pela promoção de alternativas reutilizáveis e duradouras. Sacos reutilizáveis, produzidos com materiais resistentes, podem substituir centenas de sacos descartáveis ao longo da sua vida útil.

Por outro lado, é fundamental que Angola avance na implementação efectiva de políticas de economia circular, promovendo a recolha selectiva, a reciclagem, a responsabilidade partilhada dos produtores e a valorização económica dos resíduos. A solução não está apenas na redução da espessura dos sacos, mas numa transformação mais profunda da forma como produzimos, consumimos e gerimos os resíduos.

As empresas, os fabricantes, os distribuidores e as autoridades públicas devem trabalhar em conjunto para garantir que os produtos colocados no mercado respeitem padrões mínimos de qualidade e segurança. Um saco que se rompe facilmente não protege o ambiente. Apenas gera mais desperdício, mais insatisfação e mais resíduos dispersos na natureza.

A protecção ambiental exige medidas eficazes e não apenas simbólicas. Precisamos de soluções que conciliem a redução da poluição com a funcionalidade, a segurança e a responsabilidade social. Caso contrário, corremos o risco de substituir um problema conhecido por outro ainda mais difícil de resolver.

O futuro sustentável que desejamos para Angola exige decisões baseadas em evidências, responsabilidade colectiva e compromisso real com a preservação do ambiente.

A Associação Nação Verde defende a realização de estudos sobre a qualidade dos sacos plásticos comercializados em Angola e a definição de normas técnicas mínimas que garantam a sua resistência, sem comprometer os objectivos ambientais do país. A sustentabilidade não deve ser medida apenas pela quantidade de plástico utilizada, mas também pela eficácia das soluções adoptadas para proteger o ambiente e melhorar a qualidade de vida dos cidadãos.

 

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