Sacos plásticos cada vez mais frágeis: estaremos a resolver um problema ou a criar outro?

A luta contra a poluição por plásticos tornou-se uma das maiores prioridades ambientais do século XXI. Todos os anos, milhões de toneladas de resíduos plásticos chegam aos rios e aos oceanos, comprometendo a biodiversidade, afectando a saúde humana e gerando elevados custos económicos para os Estados. Perante esta realidade, governos e empresas têm adoptado medidas para reduzir o consumo de plásticos de utilização única. Em Angola, esta preocupação ganhou um importante impulso com a aprovação do Decreto Presidencial n.º 122/25, que institui o Plano de Acção Nacional para a Eliminação Progressiva de Plásticos de Utilização Única.

Todavia, importa questionar se algumas das soluções actualmente implementadas estão, de facto, a cumprir o objectivo para o qual foram concebidas.

A redução da espessura dos sacos: solução ou ilusão?

Nos últimos meses, tornou-se evidente uma alteração na qualidade dos sacos plásticos disponibilizados pelos supermercados e estabelecimentos comerciais. Embora aparentem utilizar menos matéria-prima, estes sacos apresentam uma resistência significativamente inferior, rasgando-se frequentemente durante o transporte de produtos básicos como arroz, açúcar, óleo alimentar, detergentes ou garrafas de água.

À primeira vista, esta medida parece ambientalmente responsável. Porém, na prática, produz um efeito paradoxal. O consumidor vê-se obrigado a utilizar dois, três ou até mais sacos para transportar a mesma quantidade de produtos. Em vez de reduzir o consumo de plástico, aumenta-se o número de sacos utilizados, comprometendo precisamente o objectivo ambiental que se pretendia alcançar.

Como afirma o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente: A poluição por plásticos é um dos maiores desafios ambientais do nosso tempo e exige mudanças em todo o ciclo de vida do plástico.” Esta mudança, contudo, deve basear-se na eficácia das soluções e não apenas na aparência de sustentabilidade.

O verdadeiro problema está na gestão dos resíduos

A investigadora Jenna Jambeck, uma das maiores especialistas mundiais em resíduos plásticos, alerta que:

“O verdadeiro problema não é apenas quanto plástico produzimos, mas a forma como o gerimos depois de utilizado.”

Esta afirmação é particularmente relevante para Angola.

Apesar dos avanços registados na política ambiental nacional, o país continua a enfrentar enormes desafios na gestão dos resíduos sólidos urbanos. Em muitas localidades, ainda não existem sistemas eficientes de recolha selectiva, reciclagem, valorização de resíduos ou logística reversa. Como consequência, uma quantidade significativa de plásticos acaba depositada em lixeiras informais, terrenos baldios, linhas de água, praias e sistemas de drenagem.

Consequências ambientais: das inundações aos microplásticos

Durante a época chuvosa, os efeitos tornam-se dramáticos. Sacos plásticos transportados pelo vento ou descartados inadequadamente acumulam-se nas valas e canais de drenagem, reduzindo a capacidade de escoamento das águas pluviais e agravando as inundações que afectam diversos bairros de Luanda e de outras cidades angolanas.

Os impactos ambientais vão muito além da paisagem urbana.

Quando expostos à radiação solar, ao calor e às intempéries, os sacos plásticos fragmentam-se lentamente em partículas microscópicas conhecidas como microplásticos. Estes contaminam o solo, os rios e o oceano, sendo posteriormente ingeridos por peixes, aves, tartarugas e outros organismos, entrando inevitavelmente na cadeia alimentar humana.

Sustentabilidade significa reutilizar, não desperdiçar

Defender sacos mais resistentes não significa defender um maior consumo de plástico.

Pelo contrário:

A verdadeira sustentabilidade reside na redução do consumo de descartáveis, no incentivo à reutilização e na promoção de produtos concebidos para durar. Um único saco reutilizável pode substituir centenas de sacos descartáveis ao longo da sua vida útil, reduzindo significativamente a geração de resíduos e a pressão sobre os recursos naturais.

O caminho para Angola: investir na economia circular

Mais do que reduzir a espessura dos sacos, Angola necessita de consolidar uma verdadeira política de economia circular, baseada na prevenção da produção de resíduos, na recolha selectiva, na reciclagem, na responsabilidade alargada do produtor e na valorização económica dos materiais recicláveis.

Empresas, fabricantes, distribuidores e autoridades públicas devem actuar de forma coordenada para assegurar que os produtos colocados no mercado cumpram padrões mínimos de qualidade, resistência e segurança. Um saco que se rompe facilmente não representa uma solução ambiental. Pelo contrário, gera mais desperdício, aumenta o consumo de plástico, provoca insatisfação dos consumidores e favorece a dispersão de resíduos no ambiente.

A protecção ambiental exige decisões sustentadas por evidências científicas e avaliações técnicas, e não apenas medidas de impacto visual ou simbólico. A sustentabilidade mede-se pelos resultados concretos obtidos na redução efectiva da poluição e na melhoria da qualidade de vida das populações.

Neste contexto, defendemos a realização de estudos independentes sobre a qualidade e resistência dos sacos plásticos comercializados em Angola, bem como a definição de normas técnicas mínimas que assegurem o equilíbrio entre funcionalidade, segurança e protecção ambiental.

O futuro sustentável que Angola ambiciona não será construído apenas com sacos mais finos. Será construído através de políticas públicas eficazes, inovação, responsabilidade partilhada entre produtores e consumidores, investimento na economia circular e compromisso colectivo com a preservação do ambiente.

Porque proteger o ambiente não significa utilizar menos plástico a qualquer custo. Significa utilizar melhor os recursos, reduzir efectivamente os resíduos e adoptar soluções que funcionem na prática e não apenas no papel.